Ter ou não ter filhos


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A maternidade é mistificada, romantizada, endeusada. Lembro que quando mais nova eu dizia com toda a certeza que não queria ter filhos, e vi muitos olhos tortos por causa disso. Com o tempo mudei de ideia, embora nunca tenha planejado especificamente quando os teria, nem sequer sabia se tentaria engravidar ou adotaria. Meu bebê acabou vindo mais cedo do que eu imaginava, e hoje sei que foi na hora certa e, se pudesse voltar atrás, não faria nada diferente.

Ainda assim, quando vejo qualquer matéria, qualquer comentário, qualquer mulher dizendo que se arrepende, eu não julgo. Minha vontade é de dar um abraço e dizer “eu te entendo, amiga”.

Mas deixem-me explicar melhor. Essas mulheres geralmente são massacradas, xingadas, humilhadas, acusadas de não amarem os filhos. Não posso e não quero falar por todas as mulheres do mundo, mas arrisco dizer que elas se arrependem justamente porque amam demais. Se não amassem, seria fácil de resolver, bastaria entregar para alguém que quisesse. Mas a verdade é que o amor que se tem por um filho é a coisa mais surreal, mais absurda que existe. Já falei que um filho é basicamente ter seu coração batendo fora do peito, e acho essa a melhor analogia possível. Você literalmente morreria por aquela criaturinha, e nem sempre é fácil lidar com algo tão grande.

Hoje fiz algo, e depois me dei conta da “bizarrice”. Uso algodão molhado em água filtrada pra limpar os olhos e a boca do meu bebê, quando ele acorda pela manhã. Faltou no spray dele, então lembrei que tenho um pouco de água filtrada no spray que uso para molhar meus pincéis e esponjas de maquiagem. Como já estou a um bom tempo sem usá-los, a água já está a um tempo parada também, e tive medo de não estar em condições de uso. O que fiz pra testar? Simplesmente molhei o dedo e esfreguei no meu próprio olho, assim, se eu tiver uma reação, sei que não posso usar no Bernardo.

São essas pequenas coisas, e muitos outros sentimentos. O medo toda vez em que ele precisa tomar vacina. O medo bizarro de derrubá-lo, quando estou trocando a fralda ou quando estou tirando-o da banheira. O medo de tropeçar com ele no colo e machucá-lo. A checagem da respiração o tempo todo. O desespero que dá ao ler notícias de desastres que envolvem o filho de alguém, pois se imaginar no lugar dos pais é inevitável, e a ideia de perder o filho é insuportável.

Ter filhos muda sua cabeça, faz você ver o mundo com outros olhos, você perde parte da sua identidade. E é por isso que digo que não encorajo ninguém a ter filhos. Deixando completamente de lado a perda da liberdade, o aumento de despesas, o adiamento temporário dos sonhos (para muitas pessoas é assim), a falta de privacidade do casal, as obrigações, os julgamentos. Tudo isso é pequeno diante do amor imenso que se sente por um filho, e é por esse amor que a maternidade vale a pena, mas é esse mesmo amor que faz a gente sofrer tanto. Eu sei, dá um bug no cérebro, e é pra fazer pensar, mesmo.

Nunca fui de dar palpites, e sempre concordei que se uma pessoa não quer ter filhos, ela não deve ter, e ponto. É a maior definição de amor misturado à dor que você pode ter. Hoje em dia, amando loucamente meu filho e vendo o quanto esse sentimento é difícil às vezes, tenho ainda mais certeza disso. Então, se uma pessoa vier me dizer que quer muito e está preparada para ter um filho, vou dar o maior apoio; e se uma pessoa me disser que não quer ter filhos, vou dar o maior apoio também, pois filhos não são para quem não os quer, não dá pra resetar, não dá pra esquecer e seguir em frente, como se faz com um ex namorado babaca. Você carregará o amor pelo seu filho durante sua vida toda, não importa qual seja a experiência.

Fica a sugestão, quando alguém te disser que não quer ter filhos. Pode ser que ela mude de ideia com o tempo (eu mesma não mudei?), mas se ela está dizendo que não quer, é porque filhos não são para ela. Ou seja: não encoraje ninguém a ter filhos.


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