Pais tóxicos


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Pais tóxicos

Hoje vamos falar de Pais tóxicos. Ninguém nasce sabendo criar filhos, assim como ninguém é perfeito. Todos nós somos passíveis de erros, e uma hora ou outra o cansaço e a impaciência vão bater, e a casca de mãe controlada e exemplar se transformará em uma choradeira e um pedido desesperado de socorro.

Mas tem gente que é mesmo irresponsável, egoísta e simplesmente tenta esquecer de que pôs no mundo um serzinho totalmente dependente de si. Assim como tem situações em que os erros maternos e paternos estão além de egoísmo e se tornam algo patológico. É o caso dos pais/mães tóxicos.

Uma amiga minha, a Brenda*, tinha uma família inteira tóxica. Quando a conheci, ela tinha 21 anos e morava com os pais e os quatro irmãos mais novos. Até aí, nada errado ou incomum. O problema é que a família da Brenda* era um círculo vicioso onde os pais a machucavam e exploravam de várias maneiras, e os irmãos, perdendo totalmente o respeito, faziam o mesmo com ela. A Brenda* não podia namorar, e quando arriscava sair com um rapaz, a mãe a dava horário para voltar, além de passar o tempo todo telefonando e mandando mensagens.

A Brenda* trabalhava de domingo a domingo, mas não controlava o próprio dinheiro. Ela pagava todas as contas de casa, enquanto os pais pagavam apenas a TV a cabo e todos os carnês de lojas possíveis.  A Brenda* sequer ficava com o próprio cartão do Banco, pois deixava com o pais. Lembro de duas ocasiões em especial: uma vez, quando chegou a época de recebermos o pagamento e ela teve que implorar para que o pai devolvesse o dito cartão, enquanto ele dava desculpas; em uma outra ocasião, no dia de sacar o pagamento ela não recebeu nada, pois o pai usou tudo na função crédito, e o banco descontou assim que o dinheiro caiu na conta. A Brenda* comprava coisas para si e escondia. Se ela não escondesse, além de as irmãs pegarem, a mãe brigava com ela por ter gasto com aquilo.

A Brenda* era uma mulher adulta, mas não tinha vida própria. Se saía para visitar uma amiga, o irmão a acusava de estar “dando o rabo por aí”. Ela era gordinha e, quando decidia fazer uma dieta para emagrecer ou se matricular em uma academia, as irmãs riam dela, a humilhavam, a desestimulavam e diziam que ela sempre seria gorda (isso que todas eram obesas, e muito maiores do que ela!). Ouve uma época em que a Brenda* passou dois meses sem conseguir fazer manutenção no próprio aparelho dentário, pois os pais tiraram todo o dinheiro dela, e eles se achavam cheios de razão em fazer isso.

Em uma ocasião em que a Brenda* estourou e brigou com uma das irmãs, o pai a agrediu com socos nas costas – no dia seguinte, no intervalo do trabalho, ela me mostrou os hematomas roxos e as marcas de unhas. E toda vez que a Brenda* reclamava de algo, eles diziam que “a porta da rua é a serventia da casa”. Mas quando ela fazia qualquer menção a ir embora, eles a chantageavam emocionalmente para ficar, ou a acusavam de querer sair para “caçar homem”.

A história da Brenda*, por mais absurda que pareça, é real. Já fazem dois anos em que ela, depois de muitas brigas, mágoas e acusações injustas, saiu da casa da família e foi morar em um apê alugado, e tenho o maior orgulho de dizer que fui uma das maiores incentivadoras para que ela fizesse isso. Hoje ela manda na própria casa, no próprio salário e na própria vida, é feliz e sabe o quanto é incrível. Mas foram um total de vinte e quatro anos sofrendo humilhações diárias e constantes.

Conto a história da Brenda*, por que vez por outra a gente se depara com situações assim, de filhos amarrados a famílias horríveis, que aguentam isso por acharem que essa é sua obrigação. Não é! Se seu pai te bate e te machuca, você pode se afastar dele; se a sua mãe é narcisista e só te humilha, você pode se afastar dela; se seus irmãos te tratam como lixo, se afaste. Se afaste sim. Você precisa preservar sua sanidade mental, e você merece e tem todo o direito de ter sua própria individualidade, você merece e deve exigir respeito.

E vocês que me lêem e são mães/pais ou prentendem ser: nossos filhos não são nossos brinquedos. Eles são pessoas diferentes de nós, eles podem ter crenças diferentes, opiniões diferentes, podem tomar um rumo diferente do nosso, podem ter uma profissão que não seja a que sonhamos para eles, podem almejar uma vida completamente diferente da nossa. E não, eles não tem a obrigação de nos sustentar, só pelo fato de que sustentamos eles – afinal, nós os colocamos no mundo, nós temos a obrigação de sustentá-los durante sua infância e adolescência. E nem tem obrigação de mudar o próprio jeito de ser e os próprios sonhos para nos agradarem.

Lembrem-se: nossos filhos não são como extensões nossas. Eles são pessoas, cabeças pensantes, corpos livres e vidas próprias. E criá-los para entenderem isso é a nossa grande vitória.

*nome fictício para preservar a identidade da pessoa citada.

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