A solidão materna e a ausência paterna


A maternidade é a função mais difícil que existe, e com certeza a menos reconhecida. Há muita romantização em relação a ter filhos, muita ilusão, muitos julgamentos, muitos pitacos alheios, e pouca ou nenhuma ajuda. Experimenta ser mãe, e aí você vai ver a proporção entre julgamentos X pacotes de fraldas que dão a você.

Eu não consigo imaginar, não consigo mensurar o quanto deve ser difícil ser mãe solo. Eu tenho um companheiro que está comigo e com nosso filho pra tudo, que literalmente só não dá o peito porque não tem. E ainda assim, tem dias que só falto chorar de cansaço e desespero. Quantas funções cabem em um ser humano? A gente precisa trabalhar pra pagar as contas, administrar um lar, ser mãe, ser esposa, estudar e obviamente, fazer algo pra se manter sã (sim, mães, vocês precisam fazer algo que seja só por vocês, nem que seja por dez minutos, do contrário vão pirar). E lembrar de telefonar pros pais ao menos uma vez por semana porque, afinal, mães também são filhas.

Como fazer tudo isso, sendo mãe solo? O quanto vocês se anulam? Como diabos vocês conseguem?

“Ah, mas existem pais solo, também.” Sim, existem pais solos excelentes. Existem pais participativos, mesmo que separados das mães. Existem pais como o meu pai, que se separou da minha mãe, mas nunca deixou de ser pai dos filhos que já tinha, e ainda criou a enteada como uma filha. Existem pais como o meu marido, que valoriza o tempo que tem com o filho e também escolheu mudar de carreira, para poder criá-lo de perto. Mas esses pais são tão, tão incomuns, que a gente sempre comenta como se fosse uma exceção, o que é muito triste. Pai que cria o filho sozinho ganha aplausos dos vizinhos, ganha ajuda dos avós, ganha matéria no jornal. Agora, pergunta pras milhares de mães que fazem o mesmo que esses pais, o que elas ganham. Além do olho torto, das críticas e da perda do direito à própria vida. Pergunta pra uma mãe solo o que acontece, se ela pedir pros avós olharem a criança pra ela poder ir beber com os amigos. Os pais solo, do contrário, tem é ofertas de parentes querendo ficar de babá, “afinal o coitado precisa relaxar um pouco”. Mãe não precisa, mãe é mãe, pelo menos é isso que as pessoas pensam, ainda que não expressem em voz alta.

É duro viver em um mundo tão machista. É duro ver amigas minhas contando que o pai não dá a menor atenção à criança. Que o pai pega o filho de quinze em quinze dias, quando não tem nada melhor pra fazer. Que o pai paga 300 reais de pensão (quando paga), e ainda tem a cara de pau de dizer que banca os luxos da ex. Que o pai arranja uma namorada e não pega mais a criança e nem conversa mais com a mãe do próprio filho, porque a nova companheira “fica desconfortável” (vontade de dar um murro na cara de quem faz isso, tanto no homem quanto nessa namorada que se julga mais importante que um filho”). É duro, principalmente, ver que tudo isso é tão naturalizado, que nenhuma dessas mães-solo ganha matéria no jornal por conseguirem fazer tudo sozinhas – afinal “botaram filho no mundo”. “Não fazem mais do que a obrigação”, dizem eles.

Eu já passei tanta raiva lendo e ouvindo histórias assim, que agradeço todos os dias pela família maravilhosa e os exemplos que sempre tive, que não eram pessoas perfeitas, mas sempre honraram o próprio papel. E peço todo o dia sabedoria para fazer minha parte. Afinal, pus um pequeno homem no mundo, e é meu dever criá-lo sabendo que precisa assumir as próprias responsabilidades. Que, assim como ele tem um pai, os filhos dele também precisarão de um.

*Imagem do Blog Leiturinha


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